Puberdade precoce

 

Quando é hora de virar mulher?

A puberdade está começando cada vez mais cedo entre as meninas. Os pais se perguntam em que casos devem usar remédios para deter o amadurecimento sexual

CAMILA GUIMARÃES E MARCELA BUSCATO

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A engenheira de alimentos Fernanda Torres Duarte, do Rio de Janeiro, diz que a puberdade chegou cedo demais para suas duas filhas, Isabela, de 11 anos, e Luiza, de 10. Os primeiros sinais de Isabela apareceram aos 8 anos e meio: os seios começaram a se desenvolver. A mãe ficou apreensiva. Ela conhecia outros casos e sabia que não seria uma situação fácil. “Ela era só uma criança. Não tinha maturidade para enfrentar sangramentos mensais e as mudanças no corpo”, diz Fernanda. Ela procurou ajuda médica. Não teve dúvidas quando a recomendação foi fazer um tratamento com um remédio para interromper a puberdade. “Envolvi a Isabela na decisão, afinal estamos falando de uma criança tomando injeções frequentes por um longo período.” Pouco tempo depois foi a vez de Luiza. Fernanda flagrou o amadurecimento precoce e começou imediatamente o mesmo tratamento. Luiza ainda toma as injeções. Isabela, aos 11 anos, parou há alguns meses. Agora, espera o aguardado momento de virar mocinha.

A mensagem

Para a sociedade
A puberdade está chegando mais cedo. E há tratamentos para retardar o processo

Para a família
O mais importante é considerar se a menina – e os pais – está preparada para lidar com a mudança
 

Casos assim não são isolados. A puberdade, o processo de maturação sexual, está começando mais cedo. O fenômeno atinge principalmente as meninas e não se sabe ao certo por quê. A puberdade marca a transição da infância para a adolescência. É um momento que pode ser comemorado pelos pais, que a encaram como sinal inequívoco do desenvolvimento dos filhos, ou temido, porque a criança meiga e companheira está prestes a se tornar um adolescente briguento e sedento por independência. Diante da aceleração da puberdade entre as meninas, tanto pais quanto médicos avaliam quando é cedo demais para elas virarem mulheres. E se é necessário frear esse amadurecimento.

A chegada da puberdade é caracterizada, nas meninas, pelo aumento dos seios, pelo surgimento de pelos pubianos e nas axilas e pela menstruação. Nos meninos, o volume dos testículos aumenta e a voz engrossa. A idade parecia bem definida desde 1969, quando o pediatra britânico James Tanner concluiu que os sinais surgiam em média aos 11 anos. E que, antes dos 8 anos, era um distúrbio, a puberdade precoce.

NA INFÂNCIA As irmãs Isabela,  de 11 anos, e Luiza Duarte, de 10. Elas fazem tratamento para deter a evolução da puberdade, que começou aos 8 anos (Foto: Stefano Martini/ÉPOCA)

De lá para cá, novos estudos vêm sugerindo que a puberdade se adiantou. Em 1997, a médica americana Marcia Herman-Giddens, da Universidade da Carolina do Norte, investigou dados de 17 mil meninas americanas entre 3 e 12 anos e constatou que, em média, aos 9,7 anos começava o desenvolvimento dos seios e muitas já tinham pelos pubianos. Na Dinamarca, uma pesquisa mostrou que as meninas entravam na puberdade aos 9,8 anos. Na China, a idade média foi ainda menor: 9,2. No Brasil, estudos localizados comprovam a mesma tendência.


Com isso, alguns especialistas querem rever a definição de puberdade precoce. O pediatra americano Paul Kaplowitz, da Universidade George Washington, diz que frear a puberdade em algumas meninas de 8 anos seria interferir em algo natural. “A recomendação está baseada em estudos desatualizados”, escreveu Kaplowitz. Ele defende a mudança da referência para 7 anos em meninas de origem caucasiana e 6 anos em negras.

Na prática, está cada vez mais complicado determinar a precocidade. “Há mais casos de meninas em situação limítrofe”, diz a endocrinopediatra paranaense Myrna Campagnoli. “Elas apresentam sinais do início da puberdade precoce, mas o nível de hormônio no sangue não é alto o suficiente para recomendarmos o tratamento.” No ano passado, Myrna fez um levantamento entre os exames de laboratório para detectar a puberdade precoce. Das 526 meninas analisadas, 89% tinham alguma elevação nos níveis de hormônios da puberdade. Mas, em 48% dos exames, os níveis ainda estavam abaixo do valor de referência para a puberdade precoce. Nesses casos, é difícil decidir se vale a pena interferir.

As causas da precocidade aparente ainda não são bem conhecidas. Existe um componente genético. Se a puberdade começou cedo na mãe, é provável que se repita nas filhas. As causas externas, provocadas por mudanças no ambiente em que as crianças vivem, também não estão totalmente compreendidas. É provável que a melhora na nutrição ao longo dos séculos faça o corpo das meninas amadurecer mais cedo. Há evidências de que a quantidade de gordura no corpo influencia porque a leptina, um hormônio produzido pelas células de gordura, estimula a produção dos hormônios que desencadeiam a puberdade. Cada ponto a mais no Índice de Massa Corporal aumenta em 44% as chances de puberdade precoce. Substâncias químicas presentes no plástico e em alguns produtos de beleza são outra causa provável. Compostos como o bisfenol A, que dá resistência do plástico, e ftalatos, que aumentam a maleabilidade, podem se desprender das embalagens e contaminar alimentos e cosméticos. No corpo, eles podem ter um efeito semelhante a hormônios. Um estudo em Porto Rico concluiu que 68% das meninas com seios desenvolvidos tinham níveis elevados de ftalatos no organismo. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária limita, mas não proíbe os ftalatos. O bisfenol A em mamadeiras foi proibido em maio. Como os compostos químicos fazem parte do nosso cotidiano, é improvável eliminá-los da vida das crianças.

CEDO DEMAIS A paulistana Evelin Cristina de Carvalho, de 34 anos. Ela foi a primeira entre as amigas a entrar na puberdade, aos 9 anos. Parou de crescer e teve de tomar hormônios para chegar  a 1,61 metro  (Foto: Camila Fontana/ÉPOCA )

O tratamento para deter a puberdade não tem grandes efeitos colaterais. São injeções mensais, bimestrais ou trimestrais de uma substância parecida com os hormônios do desenvolvimento, que desencadeiam a puberdade. Saturado, o corpo para de produzi-los e estaciona a evolução do amadurecimento. O tratamento é caro. Pode passar de R$ 11 mil, embora exista a opção da rede pública. 

A decisão depende de alguns fatores. Primeiro, é preciso avaliar quanto a puberdade precoce prejudicará a estatura final da menina. Durante essa fase, as meninas crescem, em média, 25 centímetros. Se o desenvolvimento começa mais cedo, a garota cresce rapidamente num primeiro momento, mas para de crescer antes do que devia e, depois do estirão, estaciona e fica baixinha. Foi o que aconteceu com a paulistana Evelin Cristina de Carvalho, hoje com 34 anos. Aos 9 anos, ela já menstruava. Foi a primeira entre as amigas. “Eu era a mais alta e me aproximava das meninas mais velhas. Ficava amiga das repetentes.” Como já havia passado a fase em que a puberdade podia ser interrompida, a recomendação médica para Evelin foi um tratamento com hormônios do crescimento para garantir que não ficasse muito baixa. Hoje, Evelin tem 1,61 metro. Sem o tratamento, não passaria de 1,50. “Se a criança já estiver no meio do processo, o ganho do tratamento pode ser pequeno e ele não é recomendável”, afirma Felipe Monti Lora, do Hospital Santa Catarina, de São Paulo.

NATURAL A psicóloga carioca Mônica Raouf El Bayeh e a filha Maria Clara, de 10 anos. A puberdade chegou cedo para a menina, mas, como ela já é alta, o tratamento foi desaconselhado  (Foto: Stefano Martini/ÉPOCA )

O segundo critério são as condições psicológicas da criança para enfrentar as transformações da puberdade. As consequências relatadas por estudos internacionais soam assustadoras: diminuição da autoestima, problemas com a imagem corporal, distúrbios alimentares, depressão, tentativas de suicídio e antecipação da primeira relação sexual. Para alívio dos pais, o que os especialistas veem nos consultórios é bem diferente. “Esses impactos são exagerados”, diz o sexólogo paulista Théo Lerner. “Uma menina não fica mais vulnerável porque entra na puberdade. Não existe essa associação direta.” Os maiores impactos psicológicos envolvem a imaturidade para lidar com os sangramentos mensais e a vergonha de ser diferente das amigas, diz Ruth Clapauch, diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. “Mas isso acontece mais com crianças mais novas, de 6 anos. As de 8 até gostam da altura e do sutiã. É preciso que os pais avaliem a capacidade de seus filhos – e sua própria – de lidar com a situação.”

A psicóloga Mônica Raouf El Bayeh, mãe de Maria Clara, de 10 anos, confiou na habilidade da filha. Maria Clara há três meses teve sua primeira menstruação. Ela apresenta sinais de puberdade precoce desde os 8 anos. Mas, como já crescera bastante – tem 1,66 metro – e sempre se mostrou bem resolvida com a aparência, o tratamento não foi indicado. “Foi um processo tranquilo”, diz Mônica. “Ela é vaidosa, gosta de passar esmalte, faz escova no cabelo. Mas adora suas bonecas e só usa tênis. Continua uma molecona.”